o regresso de adele, a ausência de valete

 

O regresso da Adele e a ausência do Valete foram duas notícias recentes aqui no Palco, que me chamaram a atenção. Tratam-se de dois artistas que se vêem a braços com lesões nos seus "instrumentos de trabalho".

Quando se fala na Adele, vem-me à ideia o caso típico da estrela precoce.

É música profissional desde o infantário e teve a "sorte" de ser abençoada com uma excelente voz. E, com a chegada àquela idade em que as miúdas têm a voz mais pujante, tornou-se, com mérito, um êxito mundial.
Não será de estranhar que, com o fim da adolescência e chegada à idade adulta, a voz dela seja já anormalmente "adulta" (qual Ella Fitzgerald, aos 60 anos de idade), com uma técnica e maneirismos que revelam uma "quilometragem" apenas habitual em cantoras muito mais maduras.
E, talvez sem surpresa, aos vinte e poucos anos, dá origem a notícias semelhantes às que se vê num jornal desportivo, sobre um jogador da bola com trinta e muitos anos, que se lesiona e tem que ser operado. Será a lesão fruto da idade e da "rodagem"? Será o fim da carreira? Regressa ao mesmo nível de antes?

Estes talentos precoces dão-me sempre a sensação que estão a queimar o "combustível" demasiado rápido, pelo menos, se quiserem andar nisto durante umas décadas. Já não digo uma vida inteira, como a Ella, ou outros "monstros", que nos servem de exemplo na música!

No caso do Valete, trata-se do outro "instrumento" essencial para quem vive da música, a audição. E mesmo para quem não vive dela, mas precisa de música para viver.

Na maioria dos eventos musicais a que assisto, acho o volume excessivo e, nalguns, insuportável, até! Sou sensível a isso (e mais ainda à equalização), mas acho que, se não fosse, é que era mau sinal (sinal que estava surdo)! Nos meios musicais que frequento, haverá quem me ache fraco, ou armado aos cágados, por ser cauteloso nos dB. Já várias vezes me pediram "mais alto" e já várias vezes eu pedi para cortar à amplificação! E vou chateando os amigos que vivem da música com esta "doutrina", porque dependem da audição para exercer a sua actividade profissional. São os maiores interessados!

Fomos educados com a ideia que só na meia idade se começava a perder audição e que só ficávamos "moucos" depois de velhos. A perda normal e gradual da audição.

Mas esta progressão foi-se tornando mais rápida, com a massificação do trânsito automóvel, das máquinas, computadores, ar-condicionado, etc... Passou a haver uma camada de ruído constante, que alterou o padrão biológico a que estavamos habituados. Deixou de existir o silêncio.

Mais ainda, já somos de uma geração que, desde a infância, cresceu com auscultadores nos ouvidos... Todos os dias, durante anos! E, ao longo dos anos, o watt cada vez mais acessível e barato! Com cada vez maior abundância de meios, com palcos cada vez maiores, que consomem mais potência que uma pequena cidade! E com a imperatividade, bem portuguesa, de "tocar mais alto do que a aldeia vizinha"!...

Estamos a abusar dum aparelho de alta precisão, desgaste rápido e que ainda não conhecemos assim tão bem quanto isso! E não ligamos muito, porque conseguimos sobreviver sem ele, mas... Basta pensarmos em músicas que gostamos e imaginar que nunca mais as podíamos ouvir! Mete-me bastante medo, confesso!...

Hoje, mais que nunca, temos que poupar a audição, para que dure mais tempo e com qualidade! Para que consigamos apreciar um instrumento acústico, quando ele toca ao nosso lado. Para que não cheguemos (pelo menos, não demasiado cedo!) a um ponto em que só "ouvimos" com muitos watts a gerar vibração dos graves no estômago, ou dos médios no cérebro!

 
 

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